30/11/2010

Diálogos: Resenhas críticas da Cia Antro Exposto sobre as cenas do CDC no DramaMix 2010

Nessa 11° edição da Satyrianas a Cia Antro Exposto dialogou com as peças e cenas apresentadas nas diversas tendas e teatros através de resenhas críticas escritas por seus integrantes. As cenas apresentadas pelo CDC foram resenhadas por Diego Torraca, Luísa Valente e Ruy Filho. Estão, na íntegra, reproduzidas abaixo:

---------

PARANOIA DIVERTIDA

Por Diego Torraca

-

TENDA DRAMAMIX


14H00 - "Bem-vindos", de Denio Maués


Direção: Marcos Gomes


Elenco: Lorenna Mesquita e Luis Eduardo

É preciso olhar para a vida com diversão. Sorte esta dos espectadores de teatro, azar dos personagens que se sufocam nas águas de suas paranoias e crenças. É assim neste espetáculo ‘Bem-vindos’. As personagens se perdem no desespero e convivem com a possibilidade quase certa da existência de extraterrestres. Um encontro numa noite agradável entre um homem e uma mulher. Cada um com seu abismo paranoico pulsando em cada ação que realizam na cena. Eles se provocam, fazem ameaças, se adoram e se tornam dependentes um do outro nesta noite onde estes seres vindos de outros planetas podem sequestrá-los a qualquer momento. Eles sofrem, o espectador se diverte com a comicidade dos problemas alheios.

----------

TAMBÉM QUERO UMA FOTO COM MEU CACHORRO MORTO

Por Luísa Valente

-

TENDA DRAMAMIX

16h00- "O fim da canção", de Drika Nery

Direção: Drika Nery e Bernardo Galegale

Elenco: Lorenna Mesquita e Lucas Pretti

Uma jovem mulher narra um episódio de sua infância. Seu cachorro morrera, e ela não queria se desfazer de seu corpo antes de tirar uma foto com ele. A narração é distanciada, no microfone, sem lágrimas, mas absolutamente comovente. Quem nunca teve que se desfazer de um amor? Antes de se desfazer do cachorro, a menina tem um último desejo: tirar uma foto com seu bichinho morto. Após insistir, a tia atende ao seu pedido. Mas a máquina não tinha filme.Porque tantas vezes somos cruéis perante aos desejos mais íntimos e verdadeiros daqueles que amamos? Se o bicho estivesse vivo, a foto teria sido tirada? Provavelmente. Mas coisa morta é coisa morta, tirar foto com um ser sem vida foge à lógica de qualquer tipo de entendimento racional, material e mundano das coisas. Mas tem coisas que nos desafiam e fogem à essa lógica. O que fazemos? Trapaceamos.

A narração da mulher encerra, e o homem que está ao seu lado, olhos fixos no público, narra também uma história de infância. Diz, também no microfone, que em certo episódio de sua vida ficou esperando por muito tempo por algo que era urgente. Corrige: "muito não, pouco. O tempo da criança é pouco". Isso também me foi comovente: o muito era pouco, a leveza de ser criança. Definitivamente, o mundo da infância tem uma lógica que se esquiva, e por vezes repulsa, a lógica racional do mundo adulto. E quando crescemos? Bem, quando crescemos, por instinto de sobrevivência e para evitar maiores sofrimentos, tentamos, todos os dias, agir de acordo com o modus operandi adulto. Muitas vezes conseguimos, outras não, e há ainda aqueles para quem olhamos e dizemos: esse não cresceu. É uma eterna criança - o que pode nos divertir ou nos irritar. Os personagens de "O fim da canção" se encontram aqui. Estão aprisionados no universo infantil e ficcional. Diante da morte de um amigo - de um possível suicídio - não sabem nem por onde começar a agir e como continuar a viver depois disso. Refugiam-se na produtora de cinema do pai, um esconderijo de criança, tentam se unir, mas acabam por se desentender. O mundo adulto bate na porta da inocência, da ingenuidade. É na agressão verbal, na troca de ofensas, que os personagens se afirmam - ou tentam se afirmar - adultos. Aqui, é preciso tentar destruir o outro para se tornar um eu mesmo, para se afirmar enquanto indivíduo pensante. O impulso criativo da criança é oprimido pelo impulso destrutivo do adulto. Mas é possível conciliar os dois, por mais árdua que seja essa tarefa. Tire uma foto do bichinho morto. Porque eu não fiz isso?

QUASE POLITICAMENTE CORRETO

Por Ruy Filho


TENDA DRAMAMIX


14h00 – "Teoria da Conspiração", de Paula Chagas


Direção: Rafael Gomes

-

Elenco: Cláudia Apóstolo e Mayara Constantino

-

Texto leve, cena curta e nem por isso fácil. Porque é preciso estar atento aos personagens políticos da história recente para entender as implicações que levaram Ronald Regan a se esconder sobre a figura de Fidel Castro casado com Margareth Thatcher, Renan Calheiros que na verdade é PC Farias ou Marta Suplicy que oculta Zélia Cardoso. Há mais no joguete infantil do troca-troca entre as figuras. A tentativa de elucidar a confusa aparência política e as artimanhas pelo poder de alguns personagens centrais. Será que algumas das poucas pessoas na platéia estavam atentas à provocação? Menos pelo teatro e mais por desinteresse em política, possivelmente. Vive-se tão alienado da história e seus agentes que é capaz de alguns se perguntarem sobre um e outro dos citados na trama. Se o público se mantém alienado em vida, também os artistas se abstêm de envolvimentos mais responsáveis sobre o discurso politizado. O que se encontra como processo dessa relação é a ideologização partidarista que faz da criação plataforma de propaganda com intuito claro de ganho ao final do processo. Teoria da Conspiração parece rir disso também. Expõe o ridículo das abordagens politizadas no teatro atual, em tom patético de descoberta infantil dos processos de manipulação exercido pelo poder. A cena é curta, realmente. Mas a provocação traz nela o que pensar. Um dos primeiros aspectos é tentar entender que a política pode e de ser compreendida de maneira mais ampla. Tende-se a entender a política como manifestação isolada cujas ações se referem ao conjunto. Mas desde a década de 1970 a política recebeu outros atrativos junto ao próprio ser, ao seu corpo, e passou a interpretar o ser como também atributo de manifestação política. É preciso voltar ainda mais, meados do século 17, quando encontraremos a morte e a vida como estrutura de soberania de poder, entre aquele que controla e o que se submete ao poder de forma extrativa e negativa. Com a mudança vetorial entre deixar viver para fazer viver, o indivíduo tem ao seu serviço o poder em forma de estrutura para sua existência, pois, diferentemente dos séculos passados, onde o Estado defendia-se do indivíduo, agora, ele necessita deste para se fortalecer. Essas transformações conduzem a uma nova concepção de política denominada por biopolítica. Ou seja, o corpo, a capacidade de trabalho e desenvolvimento da ação humana, leva o sistema a ser sempre favorável à vida por motivos óbvios, propondo a própria vida política do sujeito como manifestação, para dela compor outra construção da identidade social, compreendendo ainda a participatividade excludente na formulação de comunidades como um processo autoorganizador, e a reintrodução do todo na individualização da criação. Esse processo também se aplica ao teatro e ao fazer teatral. Também deve e pode a cena trazer para si as observações biopolíticas, sobretudo porque o teatro permeia o corpo como recriação da identidade, individualiza a criação ao criador enquanto gera certo paralelo a pluralidade no reconhecimento de sua construção. A essa comunidade formada pelo espelhamento com o público surge a identidade social em diálogo aberto, e nessa dialética a capacidade de traduzir discursos pessoais ao pensamento mais amplo. A cena é curta, insisto. E pretende politizar a ignorância histórica e o desinteresse da platéia. E fica apenas nisso. Não avança nos trocadilhos, não descorre por uma nova representação da política e não entende os seus próprios motivos. Fica faltando mais tempo ou mais ousadia em enxergar além das manchetes dos jornais

---

Fonte: http://antroexpostodialogos.blogspot.com/

0 comentários: